Uso de células-tronco no tratamento de doenças oculares

Prof. Dr. Caio Regatieri
Diretor Médico da UPO Oftalmologia
Doutorado em Oftalmologia – Universidade Federal de São Paulo
Pós Doutorado em Oftalmologia – Harvard Medical School
Professor da Pós Graduação do Departamento de Oftalmologia – Universidade Federal de São Paulo
Professor Assistente do Departamento de Oftalmologia – Tufts Medical School
Presidente do Centro de Estudo Moacyr Álvaro
Presidente da Sociedade Brasileira de Laser e Cirurgia Oftalmológica

Com o avanço da medicina conseguimos, hoje, tratar doenças que antes eram incuráveis. O uso de células-tronco já faz parte das opções de tratamento, principalmente em casos doenças hematológicas como a leucemia. O transplante de medula óssea foi o primeiro transplante incorporado com sucesso na prática médica.

Mas afinal, o que são células-tronco? Não são células que nascem nas árvores assim como se falou em uma propaganda. Células-tronco são células indiferenciadas capazes de se transformar em qualquer célula do nosso organismo. Ou seja, uma célula tronco pode se diferenciar em uma célula do cérebro ou do rim ou do olho. Então o que determina a transformação destas células? Este processo é controlado por diversos fatores como os hormônios e fatores de crescimento. As pesquisas atuais investigam estes processos para que seja possível direcionar o crescimento de células-tronco para o tipo celular que se deseja.

Hoje trabalhamos com células-tronco embrionárias e adultas. Mas qual a diferença? As células-tronco embrionárias podem ser isoladas de embriões que foram congelados para fertilização. Este tipo celular apresenta maior capacidade de se diferenciar em outros tecidos. Porém existe grande debate ético em relação ao uso de embriões congelados para estudos e tratamentos. Já as células-tronco adultas são isoladas dos organismos adultos. O seu potencial de diferenciação é limite por se tratar de uma célula pré diferenciada. Recentemente um professor de biologia celular do Japão, Prof Yamanaka, ganhou prêmio Nobel após comprovar a possibilidade de transformar uma célula adulta em célula tronco através de tratamento com engenharia gênica. Este tipo de célula é conhecido como célula pluripotente induzida e com certeza será muito utilizada no tratamento de doenças oculares.

E as células-tronco são usadas para tratar doenças dos olhos? SIM! O olho funciona como uma câmera fotográfica e pode ser dividido em 2 partes. A parte anterior funciona como as lentes da câmera – são a córnea e o cristalino. Já a parte posterior funciona como o filme da câmera – a retina.

A córnea pode ser danificada em casos de queimaduras químicas (quando um ácido ou base caem no olho) ou em casos de trauma. Nestas situações a córnea que normalmente é transparente fica opaca. Assim, torna-se necessário o transplante de córnea associado ao transplante de células-tronco da córnea para recuperação da visão. Atualmente, conseguimos isolar as células-tronco da córnea do olho sadio e transplantar para o olho com problema e desta maneira recuperar a visão. Se os dois olhos forem acometidos, células do banco de células da Universidade Federal de São Paulo podem ser usadas. As células-tronco são transplantadas juntamente com a córnea de um doador e diminuem a chance de rejeição e falha do transplante.

Já na parte posterior do olho (retina e nervo óptico) buscamos tratamento com células-tronco para doenças degenerativas, como por exemplo a degeneração macular relacionada à idade (DMRI) e glaucoma, e também a retinopatia diabética. Estudo realizado na cidade de São Paulo mostrou que as doenças da retina (DMRI e retinopatia diabética) são a principal causa de cegueira, assim como ocorre em países desenvolvidos. Isto deve – se ao aumento da expectativa de vida da população mundial que leva ao aumento da incidência de doenças degenerativas.

Existem diversos trabalhos de transplante de células-tronco de retina em animais cegos que mostram o sucesso na recuperação visual de modelos experimentais desta doença. As células-tronco embrionárias são diferenciadas em células progenitoras da retina no laboratório e posteriormente são injetadas abaixo da retina, local que normalmente estão situadas. Após 1 semana existe a integração das células transplantadas com as células da retina doença e desta maneira ocorre recuperação de parte da visão. Obtivemos sucesso em experimentos com camundongos inicialmente e depois em porcos. 

No entanto, ainda não usamos na prática clínica células-tronco para tratamento de DMRI. Em breve iniciaremos estudo com humanos na Universidade Federal de São Paulo. Células-tronco de banco de células serão diferenciadas em células retinianas em laboratório. Em seguida serão transplantada para a retina danificada para recuperar a arquitetura retina. Na primeira etapa da pesquisa iremos avaliar a segurança do transplante de células-tronco, já que é um tratamento inédito. Por este motivo selecionamos pacientes com baixa de visão importante. Estamos estudando esta técnica há alguns anos, juntamente com a Universidade de Harvard e da Califórnia. Portanto, temos boas expectativas de que este procedimento tenha sucesso na recuperação da visão de pacientes que atualmente podem ser considerados cegos.

Muitos pacientes perguntam sobre o congelamento do cordão umbilical para isolamento de células-tronco. Sabe-se que existem células-tronco no cordão umbilical mas ainda não existem aplicações para este tipo celular. Como foi mencionado no começo deste artigo existem células pluripotentes induzidas que poderão ser retiradas da própria pessoa e posteriormente usadas no tratamento. Portanto, minha resposta ao meus pacientes é que eu não vejo razão para congelar o cordão.

Atualmente, as células-tronco são utilizadas de forma rotineira para tratamento de algumas doenças. Em relação ao tratamento de doenças oculares pesquisamos bastante a utilização de diversos tipos de células e tenho certeza de que em breve conseguiremos recuperar a visão de pacientes com doenças degenerativas e, também, evitar que estes pacientes fiquem cegos.